Páginas

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

IRMÃ DOROTHY SUA LUTA VIVA



O dia 12 de fevereiro de 2005 ficará gravado para sempre na vida do povo de Anapu no Pará, neste dia sangrento tombou a irmã Doroth Stang, missionária religiosa, mártir da ecologia e do povo da terra, sua voz calaram, mas não calarão a voz daqueles que são sementes do profetismo de tão honrosa figura. Seu martírio nos faz questionar, até onde vai a ganância destes latifundiários quem em nome de ideais individualistas e destrutivos de vidas, derrubam nossos profetas.
Sua coragem impulsionou tanto profetas que nos dias de hoje continuam sendo ameaçados em defesa da justiça, da ecologia, dos povos indígenas, mesmo com a impunidade para os mandantes de tantas atrocidades cometidas: Eldorado do Carajás, Vicente Cañas, são impunidades que jamais se apagarão, pois o sangue desta gente martirizada na América Latina é fecundo, capaz de fazer germinar sementes de esperança e utopia, capaz de animar os “lutadores do povo” de nossa atualidade.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A JUVENTUDE DO CAIRO



O presidente do Egito Mubarak tem dirigido seus discursos aos jovens da cidade do Cairo, estes estão sendo protagonistas de um grande movimento de reação frente a ditadura implantada pelo presidente Mubarak a mais de trinta anos. O que significa dizer que quando fora eleito presidente a maioria dos manifestantes nem tinham nascido.
A força de expressão que brota da juventude na Praça Tahrir representa algo de singular importância na história. Mais uma vez a humanidade vê-se na possibilidade de reverter um quadro político antidemocrático com o protagonismo de jovens que representam mais de um terço da população do Egito e que se encontram em situação de total exclusão e abandono frente a políticas públicas direcionadas a estes.
Em outros momentos da história a juventude marcou passo para que situações de opressão de abuso de poder fossem superadas. A juventude de 68, que se coloca a frente das marchas gritando contra as ditaduras latino-americanas e no mundo. Mesmo antes, o mundo operário é sacudido no século XIX pelas organizações sindicais urdidas por sindicalistas na sua maioria jovens. Os movimentos revolucionários anti-nazismo, anti-fascismo, a revolução cubana, as revoluções camponesas das décadas de 40,50 e 60 tiveram mãos externamente jovens à frente, podemos citar lideres como Fidel Castro que até hoje lidera o comunismo na ilha de Cuba, jovens como Lula, Luther King, entre tantos lideres que puljaram lutas em favor da democracia e da vida contra opressão e tortura de militantes companheiros.
Cairo é uma prova viva de que esta juventude não está adormecida vendo as atrocidades e torturas e silenciando-se, pelo contrário há um movimento que poderá trazer à tona a esperança ao povo grego que a mais de trinta anos caminha sob o regime de uma ditadura. O século XXI não significou a morte das consciências conforme desejavam alguns, nem o adormecimento de nossa ousada juventude.
Esse espírito juvenil que faz com que as manifestações ganhem corpo é típico de quem é diretamente atingido por uma política que não pensa nos jovens e que não permite que estes se organizem. A novidade é há trinta anos quando o presidente Mubarak fora eleito não havia a expressão da internet nem da globalização tecnológica, a juventude do Cairo soube usar desses instrumentos que tantas vezes são utilizados para alienar nossos jovens, transformando-os em instrumentos revolucionários.
A lição que vem do Egito é a mesma lição bíblica trazida por Moisés a mais de cinco mil anos, e coincidentemente do mesmo país, de que a humanidade não suporta injustiças e lições de desumanidade, e que é preciso à organização do povo para superação destas realidades, nosso conformismo, comodismo e individualismo nos levará a destruição e o caos. É preciso a audácia do jovem Moisés de organizar o povo e caminhar.
Que as lições vindas da resistência juvenil do Cairo sirvam para nos mostrar que ainda temos muito o que fazer para que o mundo seja efetivamente mais humano.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

PRAÇA COM A JUVENTUDE



Londrina se prepara para receber sua primeira Praça da Juventude, um projeto do Governo Federal que tem levado a várias cidades do Brasil a constituição de um espaço com várias opções de lazer de entretenimento e cultura. Em Londrina não será diferente, a praça promete ser na zona sul de Londrina um belo espaço para a juventude londrinense.
O que de fato precisa ser levado em consideração é de que um espaço público como estes tem seu precioso valor, pois bem sabemos da carência da zona sul de Londrina em políticas públicas para juventude, diferente de outras regiões da cidade que tem contado com o trabalho de diversas entidades no que diz respeito ao cuidado e a formação de adolescentes e jovens.
O cuidado que precisamos ter neste momento, é da constituição de um espaço onde efetivamente sejam atendidas as demandas de políticas públicas de criança e juventude, é preciso vencer o extermínio de adolescentes e jovens, o tráfico de drogas e principalmente a ociosidade daqueles meninos e meninas que não tem acesso ao emprego nem muito menos formação para isso.
Nesse sentido acredito que seria de grande valor mudar o nome do projeto, pelo menos em Londrina, de Praça da Juventude para Praça com a Juventude. O que muda? Ora muda tudo, vamos convocar nossos adolescentes e jovens daquela região e perguntar o que eles querem nessa praça. Quais serviços a prefeitura deverá oferecer? A praça tem que ser o espaço da sociabilidade saudável, formada a partir dos conceitos e da realidade da própria região, com a colaboração das entidades e do poder público para que se efetive.
Se não ouvirmos nossos meninos e meninas, podemos cair no estigma do velho jargão: “eles não querem nada com nada”. Assim, nossa praça vazia, será palco de tristes situações de violência e morte, como em tantas outras praças comuns. Quase um cemitério e não uma praça.
Deixem os adolescentes e jovens dizerem o que eles pensam e ajudemos a eles a construírem cidadania na Praça com a Juventude. Aí sim teremos uma Londrina feliz.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

DESASTRES COMO CONSEQUÊNCIA


É assim todas as vezes que optamos por algo que vemos consequências ruins daquilo que optamos, tantamos e temos que mudar de opção. Acontece que para isso acontecer muitas vezes, trgédias anunciadas eclodem como um soco em nossas cabeças, por não temos feito nada antes.
As enchentes e as mais de 500 mortes no Rio, nada mais são do que consequências de um modelo de desenvolvimento que não cabe na palma de nossas mãos, totalmente descontrolado. Por fim quem mais paga nessas situações são as comunidade mais pobres, que terão muitas dificuldades para recomeçarem suas vidas.
Ora é preciso um exame de consciência e uma mudança rápida na forma de como estamos tratando a natureza e os biomas. Relação com a natureza não significa que convivendo no mesmo espaço ela nos respeitará, é preciso espaço, cuidado, medidas de relação que não interfiram no espaços, relação é justamente isso, cada um tem seu espaço.
Discurso repetitivo esse de que o que está acontecendo pelo mundo afora, é consequência do modelo capitalista de se desenvolver. Queremos ouvir agora alternativas. É preciso ações sérias. É preciso que as entidades se envolvam na construção de um modelo de superação dessa barbárie, se não nossos filhos continuarão sendo soterrados por nossa teimosa ingnorância de acreditar que sempre foi assim e não temos muito o que fazer.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

OLHAR




Enxergar e não olhar é assim que muitas vezes agimos. O olhar tem certa profundidade, que alcança uma longitude mais ampliada que apenas enxergar.
Podemos enxergar várias coisas, mas nosso olhar muitas vezes se limita a perceber e nem sempre agir. Quem olha age, a ação ligada ao olhar foi dimensionada primeiro por Deus, que <> (Ex 3,7a), mas é um olhar direcionado atento, e da mesma forma que olha sente e <> (Ex 3,8a). Assim este olhar não é qualquer olhar, é relacionado a uma ação posterior concreta.
Corremos o risco de no mundo contemporâneo parecermos cegos diante de uma série de realidades, ou pior apenas enxergarmos e não olharmos atentamente a realidade a sua volta. Quando uma pessoa olha para outra está sentindo tudo o que está a sua volta e busca respostas. A solidariedade está relacionada a este sentido, somos solidários quando conseguimos absorver através do olhar a necessidade do próximo, mesmo que este não dirija-me nenhuma palavra. É um olhar solidário, que alcança o olhar de Deus e conseqüentemente sua ternura.
O individualismo tem dirigido nossa olhar na direção de nós mesmos, tem nos feito egocentristas, não conseguimos nem perceber quem está a nossa volta. Essa atitude tem atingido inclusive a realidade familiar, pais que não conseguem olhar os filhos apenas o enxergam, e filhos que não conseguem olhar seus pais. Corremos o risco de vivermos numa sociedade como a do filme Ensaio sobre a Cegueira, perdidos e desorientados, sem direção.
O ver está relacionado ao sentir desde a experiência bíblica até mesmo as marcas vivenciadas na humanidade, as grandes transformações da história passaram pela força dos olhos sensíveis de grandes lideres que além de enxergarem as realidades puderam perceber nestas possibilidades de mudança. E na inquietude do olhar sensível lutaram e realizaram possibilidades.
Olhar está relacionado ao toque <> (Lc 8,45), essa pergunta de Jesus revela justamente que seus olhos estavam voltados para o pobre (Sl 25), desta maneira reforça a teoria que de onde ele estava era capaz de enxergar uma multidão, mas seu olhar se individualiza para a pessoa que clama por justiça.
Sensibilidade e justiça andam de braços dados, percebemos as injustiças, mas nosso olhar nem sempre quer profetizar, olhar é agir, é ter capacidade <> de recepção e mobilizar nossas forças para transformar. Que nosso olhar não seja acomodado e alienado. Olhamos, sentimos e lutamos, assim alcançamos a possibilidade de interligar sonhos com os olhos, sabemos que é preciso olhar mais longe e que é preciso utopizar, nada de olhar para baixo, adiante. <> (Kierkergaard).
Renato Munhoz

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

UMA VISITA: MEMÓRIA E CAMINHO



Organizamo-nos, trabalhadores/as da Casa da Juventude de Goiânia, na manhã do dia 04 de novembro de 2010, para visitarmos Pedro Casaldáliga, bispo da Igreja, no Brasil. Ele fez uma cirurgia. Fomos eu, Edina, Graça, Alessandra, Marcelo e a Irmã Jesuíta. Brincávamos que estávamos em romaria... Chegamos e fomos acolhidos pelo padre Paulo, que dizia que algumas pessoas não pareciam ser representantes de Casa da Juventude. Fomos acolhidos por Pedro. Perguntou pelas eleições. Trocamos impressões. Falamos das opções imediatas e dos projetos dos nossos sonhos. Falamos dos equívocos que podemos viver, presos no sonho, sem considerar a realidade. Podemos, até, ignorar os 28 milhões de pessoas e teorizar sobre elas, porém a experiência da fome é outra coisa.
Meu coração encheu-se de alegria, como um consolo de Deus, quando ele começou a falar do projeto da CAJU, dizendo que era um sonho alto demais. Ainda mais, acrescentou ele, porque se trata de jovens e sobre eles/elas sempre pairam desconfianças. Não se pensava que iria muito longe, mas como cresceu... Contra tudo isto e por isto, temos que ser sempre fiéis e nunca perder o horizonte, o objetivo maior – o Reino. Todo o resto é passageiro, mas não podemos desviar-nos do Reino. Também disse da importância da comunidade, de participar, de motivar os jovens para participarem dela porque é na comunhão que se vive o seguimento.
Essa fala de Pedro me fez percorrer o caminho dos 25 anos. Visitei, como num passe de mágica, todas as desconfianças em relação à juventude e sua organização, e também, a Casa da Juventude. A profecia era verdade. E, ali mesmo, percebi que a fidelidade ao Reino, o cuidado com os pobres e os jovens foram o que nos fortaleceram no caminho. Quantas tribulações, quantas desconfianças foram vencidas! A fala dele que tudo passa era a mais pura verdade. Uma verdade vivida. Sentia que ele transmitia o quanto Deus nos ama e cuida de nós, em cada um dos momentos, em cada decisão.
Também pude testemunhar o caminho feito por Graça, Edina e Marcelo e perceber como o encantamento, a presença de Pedro em suas vidas contribuíram no caminho como testemunhas. Percebi, também, o quanto a visita ao Pastor nos fortalecia para o caminho com a juventude empobrecida, na fidelidade ao Reino. Graça entregou a música que fez de presente a ele. Cantou. Ele agradeceu e acompanhou tudo com respeito, carinho e um gesto de uma jovem. Fico imaginando o poeta, ouvindo a poesia da outra, com uma sensibilidade que é dada a tão poucas pessoas. Também confirmou que Deus, para revelar sua bondade, de tempos em tempos, envia pessoas que nos encantam porque revelam seu amor, sua bondade, sua plenitude e aí nós sabemos que podemos ser mais e devemos viver com mais intensidade estes dons que Deus nos revela.
Estava conosco a irmã Jesuíta que viveu em Confresa (MT) durante muitos anos e está chegando de uma experiência na África, Moçambique. Ela nos contava dos jovens, da pobreza e miséria na África, da cultura. Pedro perguntava sobre os costumes do povo e se a Igreja tinha capacidade de diálogo com o povo e sua cultura.
Esses encontros marcam nossa vida. O primeiro encontro com ele foi, creio que em 1984, na Assembleia do Regional, sem eu saber que ele era bispo. Sentada ao seu lado, me encantou a presença. Sabia que era um homem de Deus e sabia que era pobre. Eu, jovem, representando os/as jovens de minha diocese, sabia que tinha fé. Só depois, descobri que era um bispo e a cena nunca saiu dos meus olhos, nem o som de sua voz cantando, “da cepa brotou a rama, da rama, brotou a flor e da flor nasceu Maria...”. Depois, na CNBB, quando estava iniciando o trabalho na assessoria, me tocou apresentar o Marco Referencial da Pastoral da Juventude. Ao final, ele se aproximou e disse: Obrigada! Que banho de pedagogia! Na Romaria, em Ribeirão Cascalheira (MT), o modo como acolhia cada pessoa, como os índios eram íntimos dele, como as senhoras pobres falavam como com ele, era alguém da família, um Pastor. E hoje, me impressionou sua memória, sua lucidez, sua capacidade de acolher, de animarmos para o caminho do seguimento a Jesus e o Reino anunciado por Ele.
Externo toda minha gratidão a Deus, porque através destas pessoas Ele nos revela seu amor, seu cuidado e nos anima para continuar o nosso testemunho de vida, como seguidora do Ressuscitado. Sei que Deus cuida de quem ele ama. Sei que Seu amor é grande e isso não se traduz em palavras.



• Carmem Lucia Teixeira, 04 de novembro de 2010.
Coordenadora Geral da Casa da Juventude Pe. Burnier